sábado, 17 de maio de 2008

O senhor Marílio – O fim (ler primeiro os 2 posts abaixo)

O sol já ia alto quando acordei. Abri os olhos e ela estava ali, no meio da rua, a olhar para mim. Quem? A génia do mofo, ela mesma, desta feita só com um ligeiro pesseguinho no rosto. Pedi-lhe que me deixasse sozinho, mas sem sucesso…

(Génia) - Oh mulheri, assim que tu gastaris os créditos que ainda tens, piro-me daqui.

Não respondi. Optei por me manter calado, esperando que ela ficasse louca com a minha atitude e explodisse, ou algo do género. Afinal esta história é tão patética, porque razão não poderia um génio transexual explodir assim de repente, só por estar enervado?

Eu estava nas últimas, cheio de dores e tinha fome. Levei a mão ao bolso e encontrei uma moeda de 1 euro. No meio de tanto azar, alguma coisa que corra bem… Algum tempo depois lá ganhei coragem para levantar a cabeça e olhar em redor. Do outro lado da rua havia um supermercado, nem queria acreditar. Ignorando a presença da génia do mofo, fui em frente. Nunca tinha atravessado uma estrada a rastejar, acho que me saí bem… apesar de quase ter sido atropelado duas vezes. Mas consegui.

Uma vez no supermercado, peguei num Bongo de Maracujá e numas bolachas de água e sal e meti-me na fila. Desesperado e sem forças, gritei:

- Jesus, ajuda me!

E o senhor que estava à minha frente na fila respondeu-me:

- Qual Jesus pá? O meu nome é Elvis, fugi dos EUA à uma catrefada de anos e vim para Portugal… tens mortalhas?

Baixei a cabeça e isso foi o suficiente para o Elvis perceber que não. Um pouco desanimado, ajeitou a sua poupa com as mãos, pagou as compras do mês e saiu.

(Génia)- Vês, ninguém te ajuda meu Bisnaguinha… anda lá fazer uma orgia gay, vá…

Era a minha vez de pagar, avancei. Olhei para o tipo da caixa, um tipo magrinho, com um avental vermelho, cabelo comprido e barba por fazer. Se calhar este encaixava no perfil para ser Jesus, mas não me vá ele responder que é o José Cid e está aqui em part time… fiquei calado. Mas por pouco tempo, pois apercebi-me do nome que estava na placa dourada que ele tinha ao peito: JESUS C. Não me contive e gritei:

- JESUS, ÉS TU! SALVA-ME!

(Jesus C.) - Pssst mas… mas… cala-te pá! Ai… Raio do homem, pá! Chiiiiiiu! ‘Tá aí um velho atrás de ti e se te ouve ainda me vem pedir para lhe dar potencia sexual pá! Vá, são 98 cêntimos.

(Eu) - Por favor, ajuda-me… este génio gay ou lá o que é ‘tá a dar comigo em doido… E estou de ressaca, Jesus, por favor…

(Jesus C.) - Ora aqui está o talão e o troco. Toma também uma bolinha de naftalina e cocaína. Agora vai à tua vida e por amor do meu Pai, cala-te! Vá, adeus, bom dia.

E foi isto. Depois de um dia no inferno, Jesus salvou-me. A bolinha de naftalina funcionou como que um talismã. Jesus é mesmo muito inteligente, só ele para se lembrar que o mofo se combate com naftalina. E quanto à cocaína, durou para uma semana inteira, era de fraca qualidade. Por acaso é a única coisa que tenho a apontar, Jesus que é Jesus devia se abastecer directamente com os colombianos… Digo eu.

Dois anos depois, posso dizer que larguei a droga em definitivo. O dealer nunca mais apareceu, correram rumores que foi preso por ter sido apanhado a fumar num avião. No entanto, meus amigos, nem tudo são coisas más… ainda mantenho o meu emprego de verificador do lixo.
O meu nome é Marílio Bisnaga e só tenho que agradecer a’oblogmaligno por me ter deixado contar a história da minha vida entre 13 de Maio de 1999 e 14 de Maio de 1999.

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