quinta-feira, 15 de maio de 2008

O senhor Marílio - O início

Enquanto os portugueses tentam encontrar uma bomba de gasolina que ofereça um desconto de 5 cent. por litro ao fim de semana, um homem percorre, cabisbaixo, as ruas de Alcoentre. Esse homem é Marílio Bisnaga e esta é a sua história.

Marílio é um cidadão português como outro qualquer: droga-se, vive numa casa abandonada, não tem família, trabalho nem direito ao fundo de desemprego e masturba-se frequentemente. Contudo, a sua vida não se resume a injectar, ressacar, comer e dormir. Ele bem queria, mas não pode ser. Há trabalho para fazer nas ruas de Alcoentre. Há caixotes do lixo para vasculhar pois é necessário conseguir objectos para vender e assim arranjar dinheiro para a próxima dose.

Mas segundo Marílio, a vida já não é o que era. “Houve uma manhã, veja lá bem, que encontrei uma televisão velha na rua e consegui vendê-la numa loja de velharias por quinhentos paus. Isto foi em mil nove e noventa e oito.” – recorda, com um sorriso nos lábios, apesar de não se vislumbrar qualquer dente. E continuo: “Essa vida boa era antigamente, só que depois tive uns problemas…”.

Questionado sobre que tipo de problemas eram, o senhor Bisnaga perguntou-nos se tínhamos tempo e ao obter uma resposta afirmativa, contou-nos a história da sua vida desde o dia 13 de Maio de 1999 até 14 de Maio de 1999.

Tudo começou no dia 13 de Maio de 1999… era o segundo contentor do lixo que visitava, ainda eram 10 da manhã. Como é meu hábito, trepei o caixote pois assim é muito mais fácil perceber o que está lá dentro, mas assim que entrei pressenti que estava ali mais qualquer coisa. E estava, era um cão que tinha sido atropelado e foi ali metido. De repente, ouvi um estrondo. E veio-me à cabeça que fosse o vento, então molhei o dedo indicador numa gota de suor, sim porque não ia por um dedo todo sujo na boca… convenhamos! Bom, uma vez o dedo molhado, levantei o braço e para o céu, de forma a tentar ver de que direcção vinha o vento. E tal como previa, uma leve aragem acariciou o meu dedo e juro que se eu soubesse distinguir para que lado fica o Norte e o Sul, saberia com toda a certeza dizer de onde vinha o vento. Assim, como não sei, preferi pensar que foi um carinho que o Jesus me deu, afinal de contas era dia da Nossa Senhora de Fátima. Depois deste momento mais católico passado comigo mesmo, olhei para baixo e vi a imagem da nossa senhora de Fátima numa lata de conservas. Fiquei preplexo. Tentei me levantar, mas depois de estar este tempo dobrado, as minhas pernas haviam adormecido e vai daí que não me consegui mexer. E assim fiquei algum tempo, olhando para aquela tamanha beleza. Estava feliz, tinha a certeza que o padre trocaria a lata divina por uma mão cheia de hóstias e um copo de vinho carrascão, que ele diz aos fiéis que é o sangue de Deus.

Quatro minutos depois recuperei as forças e desloquei-me até à “salvação”. Mas para meu espanto, quando peguei nela não tinha lá nada. Que desilusão… vou ter que comer outra vez restos ao jantar. Mexi num saco ao lado e percebi o que acontecera: a lata não tinha o rótulo e estava a reflectir a imagem de uma da Santa que alguém mandou fora, pois estava partida.

Se calhar afinal não sou o escolhido para ter uma refeição tão católica, gritei enquanto dava um murro numa almofada velha que cheirava a mofo. E nisto, outra coisa dento do contentor se manifestou…

1 comentário:

Anónimo disse...

o que? o que? suspanseee